terça-feira, 3 de abril de 2012

 

Debates sobre Educação no Contexto Pró-Conferência Rio+20

Tião Soares

 

Cabe aqui, para começo de conversa, deixar claro, que este texto não se trata de uma pesquisa detalhada sobre a educação por ocasião da conferência Rio+20; se destina a um breve e superficial levantamento do que se estar a debater sobre este assunto nos últimos dias. A relevância e a importância merecida a esta área do conhecimento, careceria, efetivamente, de mais profundidade e dedicação, para se debruçar sobre o tema e, dessa forma, garantir um garimpo de maior execelência e responsabilidades.

Entretanto, é bom esclarecer que este breve texto se trata, apenas, de uma baixa demonstração, de uma superficial análise dentre tantos debates a respeito deste tema. Entretanto, os debates sobre a educação buscam uma demonstração sobre a responsabilização dos indivíduos pela sua formação, independentemente das condições em que se encontrem, a institucionalização de mecanismos de escolha e de liberalização(política liberal) na educação - que criam novos espaços para o exercício de estratégias de distinção por parte dos grupos mais poderosos - são alguns dos processos sociais frequentemente associados à produção de novas e profundas desigualdades e exclusões sociais.

Desse modo, a credibilidade e o sucesso de um programa político que articule a ampliação de oportunidades de educação, formação e a afirmação da cidadania dependerão do modo como, em simultâneo, for efetivamente confrontado o problema político ao valor posicional da educação, objeto dessas ações.

Neste sentido, a investigação, ainda que superficial, a que me propus a fazer pretende trazer uma breve análise do debate disponível sobre este tema. Ressaltando-se, no entanto, que o aprofundamento das análises disponibilizadas nas diversas opiniões, pareceriam sustentar a perspectiva de que é possível uma via de desenvolvimento humano, social e ecologicamente sustentável, distinta do modelo de competividade liberal-produtivista e que aponte em novos e mais amplos compromissos sociais associados a negociação de regras sociais e de proteção do meio ambiente.

Baseado nestes nos debates e reflexões acerca do tema da educação pró-Conferência Rio+20, chama a atenção a proposta do governo brasileiro na busca de sugestões alternativas sobre o desenvolvimento da economia verde por meio de incentivos à melhoria da qualidade de vida das populações, erradicando a pobreza e estimulando a sustentabilidade. Essa alternativa deve ser associada aos programas de transferência de renda, como os já adotados no país, e aos números positivos da economia nacional.

A defesa do pronunciado acima, até que se prove ao contrário, pode amenizar e/ou dar melhores respostas ao que me posicionei neste texto sobre processos sociais frequentemente associados à produção de novas e profundas desigualadades sociais e exclusões sociais.

Finalmente avalia-se que é cada vez mais urgente a implementação de um programa político que articule a ampliação de oportunidades de educação, formação e a afirmação da cidadania, de modo a fomentar o empreendorismo e melhorar a qualidade de ser e de vida.

Assim o debate sobre a educação alarga e enriquece, ainda mais, a compreensão dessa área do conhecimento como imprescindível ao desenvolvimento social e humano, abre novas intenções de novos modelos e estratégias da transição para uma sociedade includente, verde e responsável.

 

sábado, 29 de janeiro de 2011

Educações de Rua: Livre Escola da Expressão


              Uma das constatações das últimas eleições foi a ausência quase que completa de manifestações de rua. Foi possível dar uma volta pela cidade de São Paulo, maior colégio eleitoral do país, e constatar que, mesmo com o clima de disputa tenso, a campanha não estava nas ruas. Em contrapartida, embora ainda com poucos impactos na decisão do eleitor, os movimentos virtuais na internet ganharam maior destaque no noticiário jornalístico. Por que será que a cada eleição e em maior intensidade esse fenômeno se repete, com a rua cada vez mais deixada de lado?

               Por um lado, vivemos uma revolução virtual que tem produzido alguns fenômenos colaborativos muito interessantes, com destaque para a blogosfera, na qual, graças aos esforços de milhares de desconhecidos, qualquer navegante de passagem pode transitar por comunidades, manifestar sua opinião e fazer uso de serviços confiáveis e de grande utilidade.

               Por outro, é interessante notar que esse espírito colaborativo, característica marcante do mundo virtual, não representa, nem de longe, o nosso dia a dia nas metrópoles. O que se vê são pessoas cada vez mais fechadas em si mesmas ou dentro de carros, escritórios, shoppings ou em condomínios pretensamente seguros, numa postura cada vez mais individualista e competitiva.

               A vida cotidiana nas grandes cidades tem se distanciado, a cada momento, das relações humanas. A rua tornou-se um espaço para os automóveis ou de práticas para outras culturas, entre elas a da violência e a da desagregação social. Com isso, gradativamente, as praças públicas foram praticamente abandonadas e deixaram de ser o lugar do encontro, do namorico, das conversas interessantes sobre os modos de vida, a cultura e a memória. Tais transformações estão ligadas à ausência de valores, à perda de sentido do encontro com o outro, com a vida real.

              A comprovar essa nova-velha cultura do automóvel e da pressa, todos os dias nas cidades são abertas novas ruas para se praticar a cultura individualista. Não surpreende que entre os eventos eleitorais de rua o mais praticado é a carreata.

              Diante de uma realidade concreta e vivenciada por todos, como contribuir para que o fenômeno do compartilhamento do mundo virtual se encontre, na política e na vida cotidiana, com o mundo real, com a rua, com a cidade?

              É necessária uma boa dose de criatividade e ousadia para fazer surgir novas práticas culturais que tornem atrativos os espaços ao ar livre, públicos e gratuitos, dos imensos centros urbanos. É preciso dotar esses espaços e colocar atividades na rua com tal poder de atração que consigam se contrapor, gradualmente, às opções de atividades individualistas, como é o caso da cultura do automóvel, que estimula e reforça a cultura da pressa.

               Exemplos dessas novas práticas culturais existem muitos, na cidade de São Paulo, em outros municípios do Brasil, em Bogotá, na Colômbia, e em variados cantos do mundo. Nesse contexto, são inseridos o uso da bicicleta, como alternativa concreta de transporte nos grandes centros, e a criação de práticas culturais que dêem um novo significado para a rua, que não seja apenas para a circulação do automóvel.
              
Um exemplo dessa utopia viável é a experiência dos Corredores de Livros em São Miguel Paulista, Zona Leste da capital paulista. Inspirada nos corredores de ônibus, que segundo os técnicos de transporte possuem inegável facilitação de locomoção para se livrar do tormento dos engarrafamentos urbanos, a Fundação Tide Setubal criou o Festival do Livro e da Literatura em São Miguel, em sua quinta edição (18 a 20 de novembro), com a pretensão de contribuir para que os espaços públicos voltem a ser lugares de livre expressão da vida social e da sociabilidade.

               Praças, pontos de ônibus, calçadões, escolas, clube da comunidade reunirão moradores em conversas com autores, lançamentos de livros, contações de histórias, trocas de livros, assegurando a promoção de espaços de circulação e de leitura, do encontro e da alegria. Os Corredores de Livros possibilitam que as pessoas juntas construam sonhos e significados de vida, troquem a ideia de crianças e moradores de rua, por ruas de crianças e de moradores. A rua passa ser o lugar de trocas, de saberes e de experiências humanas e não apenas espaço da violência, do medo, da pressa.

              Ao construírem itinerários da liberdade de expressão e do espaço livre, os Corredores de Livros recuperam o poder aglutinador, no qual ocorre a geração não intencional de oportunidades e situações entre as pessoas, que é o maior trunfo das cidades. Contribuem desta forma para combater o vácuo cultural que se empreendeu à vida nas cidades, transformadas num lugar vazio, sem alma, sem ares humanizadores e humanizados, sem sentido de pertencimento.

               Entretanto, não é uma empreitada fácil levar adiante ações potencializadoras para tornar o espaço público – praças, ruas, pontos de leitura, mercados – em lugar de convívio humano. Como bem definiu a antropóloga Maria Lucia Montes no I Seminário Cultura: Diálogos para o Desenvolvimento Humano, realizado em 2008 pela Fundação, mudanças de hábitos não são fáceis, porque implicam uma mudança de visão de mundo, alterações de perspectivas com relação aos valores que se traduzem em nosso comportamento cotidiano.

               Apostar em métodos inovadores de revitalização da rua, do espaço público e da cidade se constitui num enorme desafio, especialmente quando a pretensão é alcançar a conexão da rua com a cidade e desta com o global. Neste cenário, a cultura sendo vista de forma alargada, em que os valores humanos são colocados como ponto de partida.

               Desta forma se busca uma nova trilha e com ela se seguirá um percurso da rua como cenário urbano no qual a educação, a cultura, as campanhas políticas, enfim, o cotidiano e a vida real acontecem.







Uma nova Medelin

Por Tião Soares

            Semana passada, participei do Plataforma Puente, em Medellín, encontro que reuniu centenas de pessoas para dialogar e revitalizar políticas, estratégias, programas e projetos que ao longo da história da América vão permitir tecer ações entre o público e o privado, abrir perspectivas em torno da cultura e a sua força de transformação social.A reunião contou com líderes públicos e privados do continente que com suas propostas de trabalho possibilitaram a criação de sinergias capazes de contribuir para o fortalecimento do trabalho social e cultural nas comunidades.
               Entre as discussões foi possível perceber a criação de diálogos criativos, reflexivos e de integração entre o público, privado e a sociedade civil numa gestão conjunta entre redes, que permitem reconhecer, valorizar os desenvolvimentos em torno das políticas da arte, da cultura, da transformação social, da educação.
               A cidade de Medelin é marcada por múltiplas violências, foi dominada em muitos momentos de sua história recente pela máfia, pelo narcotráfico e por grupos paramilitares. O fortalecimento institucional, da governabilidade, do enraizamento e da cidadania foram alguns dos grandes desafios para a transformação da Medellin atual.
               Um conjunto de políticas, de estratégias, programas, de projetos e ações, de desejos e de sonhos, de compromissos de uma nova geração de políticos e de políticas trouxe a essa cidade um ar de transformação, vivenciado e vivido pela arte e pela cultura e a educação, buscando propiciar espaços para o encontro, para a contemplação, para o reconhecimento do outro.
Sujeitos ativos das diversas comunidades resistiram à guerra armada por uma revolução desarmada da arte, da cultura e da educação. A resistência se deu pelo enfrentamento de não perder a alegria. Assim se mobilizou pela razão de um sentimento, de um propósito comum, em defesa da vida digna, de seu território, pela sua identidade social e cultural que são exemplos de grandes transformações.
              É possível ver e sentir o aprendizado dos homens e mulheres de Medellín. Ele está no semblante e no desejo de luta de cada pessoa que se expressa em uma conversa, em um encontro. Forçados por uma situação de violência, produziram uma mudança substancial pela cultura, a sociedade se transformou e essa vitória fica muito clara.
             Por toda cidade, se respira um ar harmônico. Alguns têm orgulho em dizer: “A arte que transforma e a memória mobiliza”. Este lema é um dos motes para um plano de revolução sem armas, implantado nas comunas.Andei de bonde e ao passar sobre os bairros, ouvia-se cantos, expressividades da cultura local, via-se ruas de lazer. Casas e centros culturais diversos em favor da vida. Pessoas felizes, muito felizes.
              Andando pelas comunas, conheci o “parque biblioteca”. Um projeto estratégico encravado em meio à ex-zonas de conflitos armados. A comuna de Espanha, uma dos famosos territórios de Pablo Escobar, é hoje habitada por uma revolução pela literatura, com um dos mais belos parques bibliotecas, premiado muitas vezes por sua arquitetura. Mas não é só isso não. Neste espaço (grande e lindo), há bibliotecas para crianças, adolescentes, jovens, há, cinema, salas para discussões, e muitas pessoas se encontram, socializando, conversando. Lá, se discute diariamente os rumos das políticas adotadas. Espaço de vida, de alegria e da criatividade.
              Ao caminhar pelo no entorno, mira-se um grande prédio. Logo se pergunta: O que é isso? A menina ao lado nos diz: “aqui é o restaurante de nossa escola e desse lado de cá, junto a ele é a nossa escola”. Esse restaurante é um deslumbre. Dar-se mesmo vontade de se fazer uma refeição mesmo que não se tenha fome nem vontade de comer.
              Voltando em direção ao bonde, agora embevecido pelo que vi, olho mais um pouco abaixo de uma ribanceira (porque Medellin e rodeado de montanhas enormes por todos os lados) e vejo uma coisa nunca antes vista: um restaurante menor chamando, também de restaurante escolar, mas sediado numa casa. Sim uma casa simples, como é mesmo o caso de todo mundo que por ali vive. Eles, incentivados pelo governo, também servem alimentação para os alunos das escolas próximas.
             Calado sai. Chorando também. O coração doía muito, condoído, machucado de emoções e de soluços de esperança. Ratificou-se ali, depois dessas andanças, que é possível, sim, mudar. A arte, a cultura, a educação, o desejo de construir mudanças formam pares sustentáveis para o desenvolvimento humano.
              Medellin, lembrada por tanta gente como a cidade de Pablo Escobar, como a cidade das milícias, é agora a Medellin dos sonhos, da respiração oxigenada de amor, de luz e da cultura, que alicerça a esperança e o brilho do olho e do olhar de cada criança, que reluz na empatia do acolhimento, uma forma nova de ver o mundo e estar com ele. A culturalização da educação e a educação da cultura podem transformar. Acreditem nisso.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Sustentabilidade da Cultura

(Artigo de Tião Soares para Curso de Especialização em Gestão Cultural da Universidade de Girona/Observatório Itaú Cultural, São Paulo, fevereiro de 2010)

Antes mesmo de entrarmos no tema da sustentabilidade da cultura, procuro em primeiro lugar e para início de conversa, a compreensão do é mesmo cultura e para isto, busco apoio em Tylor, a concepção universalista da cultura. É Edward Burnett Tylor(1832-1917), antropólogo britânico, que devemos a primeira definição do conceito etnológico de cultura, a saber:


“Cultura ou civilização, no sentido no sentido etimológico mais lato do termo, é esse todo complexo que compreende o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, o direito, os costumes e as outras capacidades ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade”(1871,p.1)

Esta definição simples e clara trazida por tylor, nos faz buscar um outro encontro com Franz Boas (1858-1942) o primeiro antropólogo a conduzir investigação por meio de uma observação direta e prolongada das culturas primitivas. Deste modo, é ele o inventor da etnografia.

Ora, foi também Boas que levava ao extreemo a preocupação com o pormenor e exigia um conhecimento exaustivo da cultura estudada antes de qualquer conclusão geral. Ele aconselhava a prudência, a paciência, passo a passo, na pesquisa. Tinha consciência da complexidade de cada sistema cultural e pensava que só o exame metódico de um sistema cultural poderia dar conta da sua complexidade.

Desse modo, como aqui o assunto é a sustentabilidade da cultura, haverei de buscar, também, a compreensão do conceito de sustentabilidade. O que se ver e se ler em torno deste conceito é o que muita gente diz que sabe o que pensa e pensa que sabe o que é a cultura e, mais que isso, sustentável. Isto é, a sustentabilidade da cultura

Neste terceiro forum e alongando-se por meio da inspiração e das lições tiradas nas aulas presenciais, fomos quase à exaustão em nossas discussões, procurando entender um conceito que acomodasse a compreensão de cada um, neste novo jeito de se achar sustentado, seguros. Ou seja, por assim achar que sustentabilidade é moda, e assim se usa para se definir qualquer coisa que se dar continuidade, que se garanta o ou um futuro, minimamente, equilibrado, etc. Mas, o que é, afinal, sustentabilidade? Um Conceito , um termo não muito novo, criado na década de 80 por representantes de mais de vinte governos, líderes empresariais e representantes da sociedade, membros da Comissão Mundial que discutiam, meio ambiente e Desenvolvimento na Organização das Nações Unidas(ONU).

Nesta busca de compreensão do termo, nos parece mais claro que o desenvolvimento sustentável, caminha para ser aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades. Ou seja, é o equilíbrio na convivência entre o homem e o meio ambiente? Pode ser. Mais o que é mesmo cultura sustentável?

Teixeira Coelho insiste em lembrar que ”a cultura só faz sentido se for expressão da negatividade, Contra esse processo de domesticação da cultura; ou seja, aquilo que traz mudança e destruição”. Desta forma, o conceito de sustentabilidade da cultura pode cair por terra ou mesmo se fragilizar quando se define sustentabilidade como sendo algo que se dar continuidade. Entendo o dizer de Teixeira, acho que a sustentabilidade da cultura ou mesmo a cultura em si, deve sustentar por si só por se transformar, mudar, se destruir; ou seja, ela se sustenta, mas é outra coisa, nunca será a mesma coisa. No entanto é a expressão do novo, é dinâmico.

Entretanto, a idéia do desenvolvimento sustentável não cabe no mesmo conceito da cultura sustentável, no dizer de Coelho, em sua obra “A cultura e seu Contrário”, objeto de estudo de nosso curso.

A relação entre cultura e sustentabilidade, pelo que me parece ser, tem a ver com a sustentabilidade humana, sem esta não acredito que exista àquela. Se o desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades, cabe dizer que a sustentabilidade da cultura somente poderá se entender se houver o equilíbrio do humano com seus valores, crenças, hábitos, suas dinâmicas e portanto, o novo sob as matizes enraizadas, mas não é a mesma coisa.

“Voltando, ainda, a busca de um conceito que nos sustente, recorremos ao dicionário e vemos: Sustentável, adj. que se pode sustentar, capaz de se manter mais ou menos constante, ou estável, por longo período”. (Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa).Aqui cabe mais um comentário a respeito do que traz a continuidade e o desenvolvimento das culturas, mas do ponto de vista de uma relação histórica.

Assim a palavra cultura pode ter um segundo sentido além do antropológico. Este segundo é particular, singular, ligado a uma sociedade, a um outro momento histórico. Cada sociedade comporta sua própria cultura, sua própria linguagem, técnicas, valores, mitos, crenças.

Há uma outra compreensão trazida por Teixeira Coelho, em seu dizer ele traz à luz de que a cultura tem que ser reconfigurada. Tudo bem, vamos admitir esse novo olhar. Imaginemos que estamos na origem de nosso debate da sustentabilidade da cultura. Na expectativa de uma perspectiva de acreditar que é assim mesmo: Reconfigurar para sobreviver na/da cultura ou para ela e com ela.

A economia da Cultura, parte de nossa compreensão sustentável

Em nosso último encontro presencial, tivemos a oportunidade de solver belas lições e apreensões com um de nosso mestre, desta feita, Xavier. O mestre para começo de conversa nos traz logo de cara a seguinte questão: O que podemos esperar da economia da cultura? Logo em seguida, mostra as antecipações sobre a economia da cultura e não define muito bem a distinção entre arte e cultura, trouxe, portanto, demonstrações de suas consequências na globalização e da cultura digital, mas isto, no meu entender, apenas do ponto de vista da arte. Desconsiderando, todavia, o conceito mais alargado da cultura.

Com estes questionamentos sobre a economia da cultura ele percorre a idéia da substituição de uma lógica econômica com a lógica artística e, aqui é que faço o meu comentário, de certo modo, discordando do autor por assim achar que a cultura não, apenas, se resume a questão artistica ( conceito de cultura bem definido acima deste artigo e desta forma aqui defendido) e pelo que aparentou ser, vejo na questão cultural um patamar maior e mais sustentável quando se refere a outros modos de vidas e de desenvolvimento social e humano.

Neste sentido, a idéia do artístico tem, nomeadamente, a sua importância, mas a cultura não pode se resumir apenas as belas artes. Por outro lado, vejo que os efeitos econômicos sobre a existência e a sustentabilidade das atividades artísticas devem ser bem significativos do ponto de vista do lucro. Pois, se considerarmos a cultura, apenas, nessa dimensão é mesmo insignificante. Condição bem definida pelo autor, como sendo a arte, a quinta parte da cultura .

Por outro lado, com esta qualificação, o autor considera a cultura, neste ponto de vista, mais alargada e, portanto, mais sustentável por se tratar de uma dimensão humana, junto com a arte e, por isso, acho que é na cultura que se forma a base e ,esta, deverá ser paga por nós povo produtor e consumidor, por assim dizer que pagamos porque somos contribuintes e como tal temos o direito de consumir esses produtos que nós mesmo produzimos, todavia, para esta condição há de se haver por parte do Estado, ressarscimento desta produção,para que deste modo se construa uma política de cultura, sustentando atese acima descrita que a cultura se sustenta por si só porque é humana.

Há de se convir que se considera e nao se conceitua a cultura como sendo uma cultura do espetáculo, nem das belas artes. Neste sentido, a questão do artista terá que ser considerada numa dimensão da cultura. Até porque ele, o artista, está inserido dentro da cultura e com isso tem o seu território e a sua atividade dentro da cultura, desse modo, contribui para o desenvolvimento econômico e social. Assim, sustentável pela condição humana; isto é, dos valores.

Assim, com esta compreensão, a questão não é apenas pela produção. A cultura não pode ser tratada como algo isolado, precisa se ter uma real importncia desta dimensão. Daí, a sustenbilidade da cultura pode se definir por assim dizer, porque é uma necessidade básica de qualquer ser humano. Não há, ao meu ver, possiblidades de se pensar no ser humano sem a cultura e, portanto em sutentabilidade sem esta condição. Daí a questão: a sustentabilidade é humana.

Isso significa cuidar dos aspectos ambientais, sociais e econômicos e buscar alternativas para sustentar a vida na Terra sem prejudicar a qualidade de vida no futuro.


Referências Bibliográficas

COELHO NETO, Jose Teixeira. A Cultura e seu contrário. Ilumnárias, São Paulo, SP. 2009.
COELHO NETO, Jose Teixeira. A cultura pela Cidade, Iluminarias, São Paulo-Sp.2008
CUCHE, Denys. A noção de Cultura nas ciências Sociais, Tradução:Pereira, Miguel Serras.Fim de século.Portugal. 1999.
BOAS Franz, Race, Language and Culture, Macmillan, New York, 1940.
TYLOR Edward B., La Civilization Primitive (trad. Franc.), Reinwald. Paris, 1876-1878, 2 vol.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Auscultação Social: Um Olhar sobre a Cultura como Política e suas Práticas no interior de Projetos Sociais

(parte do folheto de Trabalho apresentado no Fórum Social Mundial 2009 em Belém do Pará)



Não devemos reinventar a roda, mas fazê-la rodar. Muitas atividades já foram desenvolvidas nas comunidades e cabe a nós enxergá-las com outros olhos. É necessário valorizar e aproveitar, ao máximo, as experiências já vivenciadas pelos atores sociais e fazer valer a prática da educação compartilhada e a troca de conhecimentos.

As ferramentas da auscultação social estabelecem em si um jeito de escutar e de observar os gestos, os ruídos internos e o que há dentro de cada um, escutar o barulho do silêncio e o que o gesto comunica. Valorizar o saber social da comunidade, observar seus modos de vida, conhecer raízes de seu acervo cultural, a origem e história dos moradores, resgatar a memória coletiva são caminhos para despertar um sentimento de pertencimento. É desta forma que a metodologia da ausculta social propõe a pensar a cultura como uma política pública. A cultura da raiz, da origem da historia que as pessoas vivem em suas comunidades. O sentido do jeito e o jeito de ser de cada um e de cada comunidade.

Na prática, diálogos permanentes e contextualizados com educadores, educandos, gestores e comunidade, privilegiando o “fazer com”, fazer junto com a comunidade, em contraposição ao “fazer para”, nos mostra que é através da cultura que afrontamos o destino com que nos deparamos. É através da cultura renovada e de uma educação renovada que seremos capazes de responder aos desafios da era planetária e remediar as carências mais fundamentais de nossas culturas.

Assim as atividades educativas, culturais, artística e de cidadania tem caráter formativo e são trabalhadas em círculos culturais, ou seja, valendo-se do método, que é a nosso ver, inovador, mas bastante simples: A auscultação Social.

Apesar do Desencantamento do Mundo moderno, por meio da ausculta social, lições são aprendidas e tiradas no caminho trilhado, proporcionando a ampliação do desenvolvimento humano em outras comunidades, dando-lhe um caráter de articulação da arte, da cultura e da cidadania.

Cultura e Educação: Pares para a Sustentabilidade Humana

(resenha de folheto do Trabalho apresentado no Fórum Social Mundial 2009 em Belém do Pará)

Como conceber um projeto possível de desenvolver o potencial criativo de pessoas e pensar na possibilidade que este seja construído por elas, considerando que a cultura é um complexo conjunto de hábitos, costumes, práticas, normas, proibições, estratégias, idéias, transmitidos de geração, que se reproduzem e se mantém, produzindo a complexidade humana?

A união da cultura com a educação possibilita abrir janelas críticas e conscientes, para que as pessoas se tornem capazes de refletir sobre os seus fazeres e saberes. Saberes deixados para trás e ou adormecidos, devido ao grande fluxo de informações, vez transformados em deformações.

A metodologia da auscultação social usada em projetos sociais que se desenvolvem em alguns espaços comunitários e governamentais – sociedades de bairro, casas de cultura, oficinas culturais, Ongs, etc – despertam o entendimento do fazer saber, da compreensão do ser como produtor de sua própria cultura.


Assim a palavra cultura pode ter um segundo sentido além do antropológico. Este segundo é particular, singular, ligado a uma sociedade, a um outro momento histórico. Cada sociedade comporta sua própria cultura, sua própria linguagem, técnicas, valores, mitos, crenças.

Pensar a cultura e a educação como pares para a sustentabilidade humana, é pensar em ações que se constituam em ponto de partida, em instrumento para um debate que culmine em uma perspectiva da problemática educativa, cultural e de valores humanos.

Culturalizar a educação é arte que se constrói fazendo fruir práticas e manifestações na sua localidade. Da conversa em pé-de-calçada e da roda de conversa, o saber e o viver de cada um é fator importante no processo de aprendizagem.

As piscadelas de um olhar têm sentidos diferentes porque a cultura se manifesta através das culturas, como a linguagem humana só pode se manifestar através das diversas linguagens. De modo, que a idéia da sustentabilidade é nomeadamente humana e para tanto ela se fundamenta por meio desses pares: Cultura e educação.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Cultura que Forma e Transforma

A cultura que forma e transforma


Quando pensamos em cultura, logo nos vem à cabeça um leque de definições. Procuro não me ater a ele. Busco nas lições tiradas em nossas discussões e na apreensão dos debates, uma nova forma de tocar a compreensão de cultura ou de uma política para ela. Assim, elegi uma e com a qual podemos refletir em especial: a cultura que efetua formação e transformação na vida das pessoas. Neste sentido, buscarei traçar caminhos que nos aponte portos mais seguros que garantam uma ampliação do leque de escolhas e, assim, de aumentar a liberdade livre das pessoas na definição de seus fins.

Isso pode significar que não há uma substância chamada cultura e como tal, o que é cultura para um, pode não ser a mesma coisa para outro. O importante aqui, é imaginarmos que não há uma acumulação de cultura, onde as pessoas se tornem donos dela e que detenham o domínio sobre todo e qualquer conceito. Assim não há indivíduo que tenha mais cultura que outro. Mais ainda, acredito que uma pessoa culta tenha menos oportunidade de viver a cultura do que uma pessoa, dita, inculta.

Visitando os escritos do filósofo Renato Janine Ribeiro, percebo em sua descrição que a pessoa que freqüenta museus, cinemas, teatros, etc. o grau de novidade de uma obra cultural, a mudança que ela proporciona, pode estar perto de um grau zero. Com esta constatação, imagino que isto quando ocorre é como se estivesse esgotando a sua capacidade de ampliar estoques. Será isso mesmo? Enquanto, diz o filósofo: “ uma pessoa virgem em cultura pode ter um vasto território a expandir. Daí que uma política de cultura deverá incluir, nomeadamente, os visionários da cultura; ou seja, os cultos. Neste caso se incluiria uma grande parte dos freqüentadores e dos criadores da cultura. Todavia, numa política que devemos traçar neste debate para que possamos garantir, também, a participação imprescindível, dos ditos, não cultos; ou seja, a inclusão daqueles que têm pouco acesso aos bens culturais, as suas obras de arte e assim esteja mais esvaziado e possa com isso, absorver muito bem a importância que esta obra cultural venha a ter na sua formação e quiçá na sua transformação.

As nossas intenções são boas, não sabemos se alcançaremos os objetivos de uma definição de cultura que busque em seus efeitos o que ela tem de importante nas vidas das pessoas. De todo modo, a busca é trazer para perto destas reflexões algo que se aproxime e promova um caráter fortemente libertador, que ao mesmo tempo em que possa produzir uma redução da importância (como sendo a única) de uma hierarquia das obras de arte ou da cultura erudita. Mas, que possam promover o acesso de pessoas ainda não providas desse” privilégio” ao conhecimento e mais que isso, do reconhecimento.

O acesso a cultura, dessa forma descrita, não significa que apenas mais pessoas freqüentem museus, cinemas, teatro etc, mas que cada vez mais, mais pessoas definam seus fins e que sejamos, apenas, os facilitadores dessa condição. Pretende-se que se tenha uma política de cultura que garanta com que as pessoas tenha cada vez mais experiências intensas para a ampliação de perspectivas e amplificação de seus contatos com que é de novo; ou seja, as pessoas possam se reconhecer dentro de sua cultura sob outro ponto de vista social: ser um ser liberto e não apenas numérico, estatístico. Compreender a política de cultura que agregue valores, que traga maior liberdade. A cultura liberta e promove mais opções de vida saudável com qualidade; isto é, uma qualidade que vai muito além da quantificação estatística. Cultura recheada de Valores humanos, condição sine qua non para a construção de perspectivas sociamente igualitárias.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A Cultura Sustentada de que ponto de Vista?

Ouvir tem sido muito bom; aliás, bem melhor do que imaginei que fosse. Começo ouvindo a leitura de meu silêncio e leio em mim a leitura de um barulho interno, sigo lendo. Li todas as coisas aqui postadas e/ou postas neste forum. Fiquei bem feliz em ter tido esse exercício da escuta e mais que isso, o exercício de aprendizado. Tem sido muito bom. Estou ainda a aprender com todos(as). Ler todos os belos artigos tem sido, para mim, a oportunidade única de tomar porres de lucidez. Muito obrigado a todos(as).

Apreender com a nova cultura ou re-significá-la é bem bacana mesmo. Temo não ter a capacidade tão profunda e esperada por todos que compõe o nosso debate forense, mais tudo bem. Vou em frente. A cultura tem que ser mesmo, segundo, orientação do mestre Teixeira Coelho, reconfigurada. Tento, juro, fazê-lo. Mesmo não tendo a capacidade histórica de ser tão modernoso. Mais tento e vou em frente na expectativa de uma perspectiva e de acreditar que é assim mesmo: Reconfigurar para sobreviver na/da cultura ou para ela e com ela.

Estes dias fiquei pensando sobre a cultura sustentada e me perguntei em que mesmo me sustentaria para acreditar na sustentabilidade da cultura. Fui indo e pensando, cá com meus botões e disse assim: Mais que história é essa de sutentação da cultura? Ora, em que mesmo isso se sustenta? Tornei a pensar no que disse Teixeira. A cultura terá que ser reconfigurada.

Pois bem, a cultura reconfigurada teria que ser pensada do ponto de vista da sustentabilidade humana; ou seja, a cultura como cenário da humanidades e isto levaria a crer que toda e qualquer fazer, saber cultural teria que se levar em conta a garantia de direitos. O caminho da cidadania junto com esta história de cultura. Acho que posso pensar na orientação do professor e acrescentar dizendo que a cultura sustentada e reconfigurada é aquela que promove a alegria, a esperança, a possibilidade de ser. Ter no ser um ser que pensa e que acredita no sonho sustentável. àquele que aponta para o futuro. Sonhar com uma comunidade de emoções que esteja, com esta nova configuração, inserida e incluída na extensão de seus direitos sociais e humanos. Uma sociedade que se manifeste por meio de suas mais diversas expressões artísticas e ou por meio de sua cultura, mais que carregue dentro de seu matulão as mais diversas garantias sociais: Educação, saúde, transporte, vida saudável e felicidade de ser um ser.

Reconfigurar a cultura é preciso, acredito nisso. Reconfigurar é preciso e logo, antes que seja tarde. Aliás antes arte do que tarde. Todavia, arte na cultura e não apenas a arte com sendo a única capacidade de expressividade de nossa cultura. O nosso ponto de vista da cultura se sustenta na tentação que me levou a refletir sobre de que ponto posso olhar a reconfiguração da cultura e de que maneira e em que medida vejo-a sustentável; Ou seja, penso numa cultura de uma outra economia. A humana.

Vamos em frente!!

Tião Soares

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Participação popular, cultura e desenvolvimento humano: o diálogo da localidade com o global

(Publicado na revista Cultura: Diálogos para o Desenvolvimento Humano, Fundação Tide Setubal, 2009)

Tião Soares

“Assim como cidadania e cultura formam um par integrado de significações, assim também cultura e territorialidade são, de certo modo, sinônimas. A cultura, forma de comunicação do indivíduo e do grupo com o universo, é uma herança, mas também um reaprendizado das relações profundas entre homem e seu meio, um resultado obtido através do próprio processo de viver. Incluindo o processo produtivo e as práticas sociais, a cultura é o que nos dá a consciência de pertencer a um grupo, do qual é o cimento”.
Milton Santos

Quando fui estimulado por Maria Alice Setubal a organizar o Seminário de Cultura: Diálogos para o Desenvolvimento Humano, do qual esta publicação é um dos principais produtos, sabia que me encontrava diante de um desafio: como mobilizar a comunidade de São Miguel Paulista, bairro localizado no extremo leste da cidade de São Paulo, a dedicar um dia inteiro para discutir a centralidade da cultura e a integração das políticas públicas de cultura, tendo como pano de fundo o desenvolvimento sustentável e o fortalecimento da localidade em diálogo com o global?
Mas por que a participação da comunidade, não só de localidades como São Miguel Paulista, tem se constituído num desafio? Diversos fatores contribuem para isso, mas nessa introdução ao rico conteúdo do seminário destacarei dois deles, pelo caráter decisivo que possuem: as noções prevalentes no Brasil do que venham a ser participação popular e cultura.

O fastio da participação
Ainda é muito comum em nosso país, quando se pensa em desenvolver trabalhos sociais, se ter em mente uma receita cheia de vontades para salvar a comunidade. Em muitos casos, esse receituário é responsável por encontrarmos jovens e crianças que participam de ações de algum projeto social e sequer sabem por que estão lá. São projetos nos quais os monitores ou arte-educadores esquecem de contextualizar os fazeres existentes. Preferem se valer dos saberes trazidos em mão única, de cima para baixo.

Fruto dessa maneira de se relacionar com as comunidades, surge o cansaço participativo, expresso no desabafo “cansei de participar”. Mas o que essa frase quer dizer? Não é exatamente de participar que as pessoas estão cansadas, mas de certo tipo de participação. Aquela que se esgota no freqüentar reuniões, onde sempre se é pautado pelo que é trazido e não se tem a chance de contribuir, de dar a sua opinião e ser escutado.
Nessa noção de participação, espera-se tão somente contar com a presença física do público, formando um aglomerado de pessoas que por limites operacionais não terão voz e vez. Para que passemos da ansiedade quanto à presença de público para o desafio da participação ativa da comunidade, em que esta seja “parte da ação”, em que todos possam contribuir com suas experiências, saberes, fazeres e sugestões, torna-se necessário reformularmos essa noção predominante de participação.

Não precisamos de um novo modelo de roda, mas fazer a antiga roda rodar. Experimentar uma nova forma de ação social em que se amplie e se areje o diálogo com a localidade. Isso pressupõe um difícil exercício de humildade para compreendermos melhor o nosso próprio discurso e ir além, empreendendo outras práticas comunitárias em torno da participação, criando ou revigorando espaços e ações que valorizem as vivências locais e tragam na sua concepção a prática da educação compartilhada.
Caso queiramos enfrentar esse “fastio participativo”, é preciso ousar e experimentar novas formas de atuação social, na qual a comunidade faça parte das ações. Com isso, amplia-se o pertencimento e com ele cresce a participação popular, pois a comunidade vislumbra a possibilidade de ver atendidas as suas aspirações e participa efetivamente para garantir a continuidade das ações.

Mas qual a relação entre essa participação da comunidade local, a cultura e a globalização? De qual cultura estamos falando?

Se o pilar da participação é o pertencimento, esse por sua vez se fundamenta na cultura – resultado dos costumes, modos de vida de pessoas e grupos, construída no dia-a-dia, nas trocas e vivências coletivas.
Nesse conceito, cultura e cidadania são inseparáveis. Não se pode falar em cultura sem se falar em participação e em conquistas de direitos. Por outro lado, não há cidadania sem se levar em conta os conhecimentos e os valores da comunidade. Um dos objetivos indispensáveis de um projeto social é despertar nos participantes um maior sentimento de pertencimento à sua localidade.

Ora, um dos contrapontos a um dos maiores riscos da globalização – a homogeneização – é o desenvolvimento de identidades próprias, ligadas à experiência pessoal de cada um no lugar onde se vive. De modo que garantir “ser” parte das ações gera a ampliação do número de pessoas participando das atividades reflexivas e dos debates nas instituições. Isso fortalece a relação das pessoas com as suas comunidades e amplia o grau de pertencimento social.

Entretanto, há riscos. Um ponto que merece cuidados redobrados é o respeito à cultural local. Carece saber antes de qual ou quais culturas estamos a falar e a respeitar. Caso contrário, poderemos potencializar culturas que se apresentam em desacordo com os princípios que declaramos no projeto social. Um dos exemplos disso é a cultura da violência, que muitas vezes é potencializada no âmbito da cultura local e, desapercebidamente, se faz presente e é veiculada nas ações de projetos sociais.

Cabe perguntar sempre: de que culturas estamos falando? Da cultura do automóvel que é priorizada em detrimento de outras práticas e vivências coletivas, como é o caso da rua e de outros espaços públicos?
A cultura da fome, desagregadora e potencialmente invisível aos olhos até dos que dela sofrem, é também uma outra vertente a ser observada, contextualizada, descontextualizada e re-contextualizada, como forma de contribuir para a reflexão e debate das comunidades populares no contexto social onde se vive?
Deste modo, a questão se torna bastante confusa e neces

sitamos de urgência neste debate em direção a uma compreensão do que estamos falando. É primordial respeitar os saberes e as culturas locais. Entretanto, antes precisamos ter claro de que cultura estamos a falar e compreender a forma pela qual passamos às pessoas da comunidades estas questões.
A cultura tem ocupado importantes espaços nos debates das políticas públicas. A questão cultural é um tema bastante instigante para a abertura de espaços de reflexões ou para situar algumas posições de governos comprometidos ou não com temas deste grau de relevância.

Entretanto, torna-se necessário empreender um esforço responsável no sentido de repensarmos o nosso exagerado crédito nos milagres de uma “suposta” política cultural, com seus especialistas e re-inventores da roda de plantão que lá estão, saídos de gabinetes acarpetados, a propor milagres mirabolantes.

Há que se estar alertas e, ao mesmo tempo, ousar. A concepção atual, que enxerga a cultura de forma fragmentada, restrita ao universo da organização de eventos, deliberadamente empobrece sua potencialidade. A proposta é a aposta. Colocar a cultura no centro, tirando-a da posição periférica, complementar, suplementar, que hoje ocupa no cenário das políticas públicas. Para isso, no contexto atual, de intensas relações globais e fortes diferenças sociais, ganha importância crucial o local, a cidade. Entretanto, precisamos entender a cidade como o centro onde a cultura acontece. Cada pessoa tem uma paisagem imaginária de cidade.

Assim, não se pode criar um re-configurador arbitrário do imaginário da cidade, mas ao contrário. Precisamos pensar a partir de outro ponto de vista, mudar as perguntas para encontrar novas respostas. Devemos compreender a cidade como sendo um cenário do conhecimento e ir além, mudar o paradigma, ler a cidade como sendo um cenário do reconhecimento. Passar da visão da unicidade – da informação, do evento e do desconhecimento – para a visão polissêmica da diversidade, enxergar e reconhecer os diversos matizes da pólis, favorecer as redes de conhecimento no intuito de aumentar o capital social.

Isso não é compatível com a concepção de cultura como evento e sim com a idéia de cultura como conjunto de iniciativas que atendam a reivindicações de diferentes linguagens e gêneros, bem como dos indivíduos criaturas criadoras. Com uma idéia de política cultural firmada no diálogo intercultural e na hipótese da centralidade da cultura na concepção de políticas públicas – assim mesmo no plural, cultura presente em todos os campos onde a vida na cidade acontece: no transporte, na economia, no planejamento urbano, no meio ambiente, na saúde, na segurança alimentar, na comunicação, na educação, no lazer e na cultura. Isso porque não há desenvolvimento econômico sem desenvolvimento cultural e, por sua vez, sem cultura não há desenvolvimento humano.

Acreditamos que a democratização do acesso à cultura é atingida a partir de uma política de garantia de direitos construídos por pessoas fazedoras e, portanto, pertencentes ao produto e não apenas como consumidoras de pacotes impostos de cima para baixo, do Norte para o Sul, do Centro para a Periferia. Nessa noção, a cultura é entendida como fator preponderantemente de transformação social. Daí seu valor inclusivo.
O que pretendemos é garantir uma prática ”nova-antiga” para a discussão, no sentido de ajudar a pensar a cultura como política pública e compreendê-la desta forma, criando assim a responsabilidade de incluir pautas constitutivas da criação coletiva, balizando-se, todavia, na construção universalizada dos direitos à criação. Mais do que isto: visando a uma cidadania cultural plena que nos remeta ao pertencimento.

Cultura e Educação: Pares para a sustentabilidade humana

Publicado no livro: Cenas: Trajetos, Vivências, Histórias de Ser Jovem, Fundação Tide Setubal, 2008)

Tião Soares *

Pensar ações que se constitua em ponto de partida, em instrumento para um debate que culmine em uma perspectiva da problemática educativa, cultural e de valores humanos, apresenta dificuldades que provém de uma questão essencial: os processos educativos se desenvolvem em contextos sociais e históricos concretos.

Neste sentido, conceber um projeto possível de desenvolver o potencial criativo de pessoas, é também pensar na possibilidade que este seja construído por elas e que possibilite abrir janelas críticas e conscientes, para que estas pessoas se tornem capazes de refletir sobre os seus fazeres e saberes. Saberes deixados para trás e ou adormecidos, devido
ao grande fluxo de informações, vez transformados em deformações.

Vê-se a cada dia em muitos cantos do mundo e da cidade a apresentação de propostas educativas, artísticas e culturais para crianças e jovens na tentativa de salvá-las(os) dos males que o mundo contemporâneo traz, como: desemprego, violência de todos os níveis, desagregação social, apatia e outros. Muitas vezes essas tentativas soam como promessas e curadoria de almas em torno da profissionalização desses jovens.

A arte, a cultura são os antídotos prometidos para retirar esses
jovens e crianças das ruas. Sim, retirá-los da rua, incluí-los em programas sociais nos quais vislumbram adquirir habilidades artísticas; de modo que com essa proposta, a nosso ver equivocada, estes jovens possam se transformar em atores ou atrizes, músicos ou artistas plásticos, malabaristas de faróis, quem sabe. São algumas questões muito presentes nesse universo de ONG'S e/ou de projetos sociais.

As chamadas oficinas artísticas, dentre outras modalidades de atividades, com honrosas e raríssimas exceções, servem para criar o desejo nestes jovens e nessas crianças de se tornarem artistas. Depois disso, o que fazer? Os jovens sonharam, tornaram-se melhores, mas a família exige uma contrapartida: Eles têm, então, que trabalhar, arrumar um emprego e levar dinheiro para ajudar no sustento de sua família, ou se profissionalizar em algum tipo de atividade, por exemplo: telemarketing. Só para citar uma.

Posto esse desafio, o que esse projeto ou essa ONG pode fazer com a promessa de transformá-los em artistas e ou profissionais das mais diversas áreas? Estes desafios fazem com que reflitamos melhor sobre as nossas práticas, pois se não olharmos melhor nessa direção, esse jovem tende a largar as atividades e partir para o sonho dourado: o de ganhar dinheiro. E isto pode ocorrer de diversas maneiras: num sub-emprego de lava-rápido, na distribuição de panfletos, entre outros. São realidades muito presentes no cotidiano de projetos que trabalha com jovens.

De modo que as nossas práticas deverão ser melhor refletidas para que não tenhamos um efeito contrário àquilo que dissemos que faríamos; ou seja, de melhorar a vida das pessoas, entre outras coisas. Entendermos o ensino da arte por meio das práticas culturais é ter em mente algumas
preocupações no fazer da educação, é imprescindível que se leve em conta, minimamente, os saberes e os fazeres dos educandos com os quais estamos trabalhando. As atividades nos diversos campos do conhecimento da arte devem ser contextualizadas, levando-se em conta o momento de vida desses educandos e seu momento histórico, ligando-os à sua cultura e ao sentimento de pertencerem ao que fazem.

A arte é sempre usada como promessa para a criação de um desenvolvimento local e na maioria das vezes se esquece que é necessário primeiro compreender o contexto onde as pessoas estão inseridas. Para se falar em desenvolvimento cultural e local é necessário que se reconheça o cenário onde os diversos atores sociais se movimentam, constroem seus espaços públicos e de convívio humano, valores e não perder de vista o olhar que estes atores têm sobre a sua comunidade.

Desenvolvimento cultural local é um processo pelo qual se resgatam identidades e/ou se constroem novas a partir da compreensão dos seres que habitam aquele local e constroem aquela cultura específica. Mas de que cultura local estamos a falar? Neste sentido, entende-se que o lugar onde a cultura acontece é o espaço onde há qualidade de vida e onde se inclui a construção da cidade real, num sentido de pertencimento.

Neste quadro pode-se dar destaque à educação como produtora e reprodutora de sentidos de existência, de trocas e de debates, de perguntas muito mais do que de respostas. A comunicação de massa que prega cotidianamente a apreensão de uma outra cultura, parece ser uma das responsáveis por grande parte da desagregação social que se constrói nesses territórios. São informações, na maioria das vezes, deformadoras e alienadoras. Entender a importância do sentido de pertencimento, é uma preocupação que o educador deverá ter na implementação de ações sociais. O processo de alienação se constrói a partir da negação do sentimento de pertencimento; ou seja, a partir da negação de seu território ou da não comunicação com a sua cultura.

O projeto Arteculturação por meio do Núcleo Sócio Cultural traçou objetivos ambiciosos e porque não dizer, ousados à busca de respostas e mais que isso, de perguntas, a esses e outros desafios; ou seja, traçou objetivos ambiciosos para serem construídos, coletivamente na intenção de criar outra cultura no ambiente de trabalho, mas que fosse diferente da que o mundo contemporâneo tem, insistentemente, exigido desses jovens.

O mundo contemporâneo tem procurado colocar o jovem numa condição de dar respostas imediatas. Precisamos ter consciência que a sustentabilidade, tem que passar pela condição humana. Não acreditamos em sustentabilidade que não seja humana. De modo que os desafios colocados no projeto passam necessariamente, pela possibilidade de formar pessoas criativas que consigam olhar o mundo por outras frestas e ter consciência de uma criação crítica e uma crítica da criação.

O Núcleo sócio cultural trilhou, nesses poucos meses de atuação, por veredas complicadas. A questão era: como trabalhar com tantos jovens que vieram na intenção de cursar teatro e com este curso se tornarem atores e/ou atrizes? Atores e atrizes, não só isso. Teriam que trabalhar também em alguma emissora de televisão e se tornarem famosos. Esse sonho poderia acontecer, por que não!? Mas fomos mais longe, a nossa intenção era fazer com que esses jovens enxergassem outros caminhos; talvez menos conhecidos, mas que tivessem trilhas andáveis e mais sólidas.

Trabalhar a construção de outros sonhos não foi tarefa fácil. Passar pela possibilidade de construir o histórico de cada um e re-escrever a sua história e depois escrever a história de outros, construir um texto. Ler as letras e mais que isso, entender o que leu. Ler o mundo é uma tarefa bem difícil. Sabíamos disso, mas era um desafio. Fomos longe e ainda não chegamos, demos a partida. Há muita estrada a caminhar.

Uma das intenções do projeto, por meio desse núcleo, era também experimentar outras linguagens na área do conhecimento que a própria linguagem do teatro exige. Conhecer técnicas de luz, de som, cenografia, figurino. E a cidadania, como construir com eles esta compreensão? Aliás, o que é mesmo cidadania? E de que modo podemos responder a tantos desafios que a vida oferece? Os(as) meninos(as) buscam ser ator ou atriz? Chegamos hoje, quase no meio do caminho. Agora com mais pedras do que antes. Construímos outros desafios e com eles, outras possibilidades: a de dizer que é possível sonhar. Acho, embora cedo, que é possível trilhar por esse caminho por nós escolhido - em busca do “fazer junto”, do “fazer com” - a construção e uma cidadania ativa e com ela construir projetos mais coletivos e fazer valer as lições e ações por eles apreendidas nas suas comunidades ou outros espaços por onde vierem a conviver.

Entendemos que esses meninos e meninas possam ter trilhado caminhos mais seguros e, com esta segurança, ter lhes apontado veredas mais sólidas e mais críticas, tornado cidadãos e cidadãs melhores e mais preparados para enfrentar os desafios do mundo lá fora, a partir dessa nova descoberta: o mundo interior. O alicerce foi construído. O desafio da construção da individualidade foi posto em contraposição a do individualismo.

A arte teve sua importância neste cenário. A contextualização foi parte indispensável desta construção. A ausculta social, metodologia aplicada em todo processo fez cavar em cada gente, especialmente, em nós educadores, outras formas de olhar o mundo e de nos vermos. O mundo que nos desafia ficou a nos olhar com outros olhos. A olho nu, a ausculta disse ao olhar que seria possível ter gestos mais humanos e diferentes daqueles que se apresentaram em primeiro plano, como o único e teoricamente mais possível. Os ruídos internos nos levaram a outros mundos desafiados pela compreensão do reconhecimento de mim no outro e este em mim. Os eu's anteriores nos eu's do/no mundo, interligando a mim, outros seres antes inexistentes, agora re-conhecidos em mim mesmo, a partir de meu gesto escondido no outro que antes me envergonhava. Envergonhava-me por não saber dizer de mim no outro.

As piscadelas de meu olhar têm outro sentido, agora são outros desafios a fio. Culturalizar a educação é arte que se constrói. Vemos que a arte tem e teve um lugar de destaque nos processos de transformação; aliás, a arte é agente de transformação, produto e produtora do processo de transformação. Foram os contextos, des-contextos e re-contextos, parte deste cenário de atores e atrizes que re-fizeram num dizer possível: SER.

São desafios que a própria condição social atual exige. São milhões de jovens que circulam nas cidades do Brasil e do mundo à busca de respostas a tantas perguntas. São desafios exigentes e extraordinariamente comprometedores para a compreensão de seres mais humanos, que tenham em sua bagagem de ser a possibilidade de viver o seu momento de ser jovem e, portanto, uma pessoa. Aqui se escreveram pequenas histórias e longas conversas se desenvolveram em torno dessa construção. Se desconstruiu muitos jeitos e se fez disso outros jeitos de se dizer e de se fazer, nomeadamente, o de se reconhecer como sujeito ativo, participativo. Pôde-se também abrir janelas de se ver o mundo com diálogos mais dialógicos, como àqueles de se fazer saber o que havíamos esquecido que sabíamos fazer.

*mestre em educação e coordenador de cultura da Fundação Tide Setubal.

Cultura, esporte e lazer. Direitos ainda marginais

Recursos ainda são gastos de forma desigual, apesar de incentivos fiscais; 14 das 31 subprefeituras não têm cinemas ou casas de cultura; área de esporte briga por orçamento de 1% da receita da prefeitura

Adriana Carranca - O Estado de São Paulo - 15/09/2008

A Constituição coloca a cultura como direito e estabelece que a responsabilidade sobre o acesso é do governo federal, Estado e município. O mesmo para esportes e lazer. As duas áreas, no entanto, são marginais na administração pública, com somente 1,7% e 0,6% do orçamento municipal, respectivamente. Para especialistas ouvidos pelo Estado, é um erro não reconhecer o papel da cultura e dos esportes no desenvolvimento humano e econômico e social da cidade.

A forma desigual com que os recursos são investidos retratam esse descaso. Na cultura, as regiões mais pobres são as que têm menos equipamentos públicos e onde a população não tem acesso às produções artísticas, muitas vezes financiadas com incentivos fiscais. A Lei 10.923, de 1990, permite aos patrocinadoras debitar parte dos investimentos do Imposto Sobre Serviços (ISS) e do IPTU.

"São Paulo tem milhares de manifestações artísticas, mas nem toda a população tem acesso a elas. Nossa cultura ainda é elitista, cara e com equipamentos concentrados nos Jardins, enquanto os CEUs, nas periferias, são mal utilizados e não existe apoio a novas manifestações culturais", diz Fernando Burgos, pesquisador do Centro de Estudos de Administração Pública e Governo da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP).

Para o diretor do Sesc-SP, Danilo Miranda, leis de incentivo são positivas desde que haja distribuição de recursos sem privilegiar uma ou outra linguagem. "A comissão avaliadora existe para isso. Na prática, as artes e os bairros que atendem a elite absorvem grande parte da verba, como se a cultura popular não fosse cultura." A classe baixa perde duas vezes: deixa de receber os recursos, destinados às produções, e não tem acesso ao produto final, porque faltam teatros, cinemas e espaços públicos nos bairros.

Os teatros se concentram na Sé, com 103 espaços ou 54% do existente na cidade, seguido pela Lapa, com 21 (11%), e Pinheiros, com 18 (9,5%). Na outra ponta, bairros distantes e precários como Itaim Paulista, Guaianazes, Casa Verde, Cidade Ademar, Cidade Tiradentes, Ermelino Matarazzo, Brasilândia, M?Boi Mirim, Parelheiros, Perus, Pirituba, São Mateus, São Miguel e Sapopemba têm zero. Os dados são do Observatório Cidadão, do Movimento Nossa São Paulo. O número de livros em bibliotecas infanto-juvenis na Sé é 36 vezes maior do que nesses bairros, onde também faltam cinemas ou casas de cultura, não disponíveis em 14 das 31 subprefeituras de São Paulo. E, ainda que a população venha para o centro, os ingressos são caros, inacessíveis à maioria.

Na visão de Tião Soares, coordenador de Cultura da Fundação Tide Setúbal, ao limitar a cultura a grandes espetáculos o poder público "abre mão da diversidade". Tião e Danilo Miranda defendem uma política transversal, com ações nas outras secretarias, como educação. "A cultura tem de ser ensinada como conteúdo na escola", diz Tião. "O acesso ao livro e o fomento da produção literária devem estar ali e em espaços abertos na cidade." Danilo acredita que a administração municipal não deve financiar diretamente artistas, mas promover o ambiente necessário para o surgimento de novas manifestações culturais, como cursos, festivais e espaços de apresentações espalhados pela cidade.

ESPORTES

A área de esportes ainda briga por um orçamento de, pelo menos, 1% da receita da prefeitura. "As administrações, desde 2003, deram mais ênfase para o esporte. Há um senso comum de que é bom para inserção social e para saúde, mas isso não é acompanhando de equivalente participação no orçamento", constata o professor da FGV Marco Aurélio Klein, especialista em planejamento estratégico do esporte e diretor da Federação Paulista de Futebol. Ele vê como prioritária a capacitação, profissionalização e qualificação de gestores locais que possam "gerar sua própria capacidade esportiva".

Significa saber organizar, montar regulamentos, fazer tabelas, divulgar e buscar recursos para as atividades. "Isso exige treinamento. Só assim vamos sair de uma coisa voluntariosa na área esportiva para uma gestão profissional do esporte na cidade. As administrações locais (subprefeituras) devem organizar suas próprias competições, com recursos privados locais. O importante não é tanto ter um atleta em Olimpíada, mas dar oportunidade a todas as crianças de praticar, participar, competir."

Ele defende maior envolvimento das escolas. "A participação das escolas em competições é muito pequena. O modelo esportivo brasileiro é formado em torno dos clubes, é por meio deles que o atleta se registra numa federação para competir profissionalmente. Essa talvez seja a razão que esvaziou o papel da escola. Mas isso é um engano. Não adianta ter quadra se não há competição. E dificilmente esses espaços são usados simplesmente abrindo as portas. Você precisa ter eventos, atrair os alunos, as famílias, enfim, a comunidade. Nos Estados Unidos, não existe ministério, Secretaria de Esportes. As escolas fazem acontecer."

Breve Currículo

Tião Soares atua há 25 anos na área de Educação, Cultura e Desenvolvimento Humano. Nascido em Martins-RN, formou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal do RN, mestre em Educação pela Universidade Metodista – SP e doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP.

Sua atuação social teve inicio nos anos 70 quando foi diretor de cultura e comunicação da Casa do Estudante do RN, mudou-se para o estado de São Paulo onde atuou como coordenador de projetos culturais do Projeto de Reforma do Ensino Público do Estado de SP (Escola Padrão); idealizador e coordenador do projeto Barracões Culturais da Cidadania; membro da coordenação do Fórum Intermunicipal de Cultura (Rede Nacional); colaborador do Instituto Polis na área de cultura e cidadania; fundador e diretor do Fórum Permanente para as Culturas Populares - SP e da Rede Nacional de Culturas Populares; Secretário de Cultura de Itapecerica da Serra – SP; idealizador e fundador do Conselho Municipal de Cultura de Paz – COMPAZ; foi professor de pós-graduação da Universidade Metodista – SP; foi membro do conselho consultivo do Prêmio Cultura Viva – Minc; é coordenador de cultura da Fundação Tide Setúbal – SP; membro do GT de Cultura do Movimento Nossa São Paulo; é conselheiro do CDC Tide Setubal.

Ganhador do prêmio Gestão Pública e Cidadania pela Fundação Getulio Vargas e Fundação Ford – BNDES; Prêmio Itaú UNICEF. Idealizador da metodologia da Auscultação Social (livro em elaboração). Publicou diversos artigos em livros, jornais e revistas dentre eles “Projetos Sociais e Participação Popular” no Rumos Itaú Cultural – Educação Cultura e Arte 2007.

Seu trabalho baseia-se numa concepção de cultura como um conjunto de pessoas e grupos com modos de vida, costumes e gostos e nas trocas e vivências coletivas. Nesse conceito, cultura e cidadania são inseparáveis. Não se pode falar em cultura sem se falar em participação e em conquistas de direitos. Não há cidadania se não se levar em conta os conhecimentos e os valores da comunidade. Nestes sentidos, a principal contribuição é de incentivar, ampliar e proporcionar o surgimento de espaços de referência comunitária nas artes, cultura e cidadania, desenvolvendo ações de parceria entre as entidades locais, incentivando e/ou fortalecendo a formação de redes horizontais baseados nas relações sociais da região. A experiência desenvolvida mostrou que o trabalho desenvolvido fortaleceu a relação de crianças, jovens e adultos com a comunidade do entorno e ampliou o grau de inclusão social. Assim, fortalecidos, puderam formar redes regionais e/ou microrregionais que atuam de forma articulada, ampliando o capital político, social e humano. Tornando-os Cidadãos.