quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Cultura que Forma e Transforma

A cultura que forma e transforma


Quando pensamos em cultura, logo nos vem à cabeça um leque de definições. Procuro não me ater a ele. Busco nas lições tiradas em nossas discussões e na apreensão dos debates, uma nova forma de tocar a compreensão de cultura ou de uma política para ela. Assim, elegi uma e com a qual podemos refletir em especial: a cultura que efetua formação e transformação na vida das pessoas. Neste sentido, buscarei traçar caminhos que nos aponte portos mais seguros que garantam uma ampliação do leque de escolhas e, assim, de aumentar a liberdade livre das pessoas na definição de seus fins.

Isso pode significar que não há uma substância chamada cultura e como tal, o que é cultura para um, pode não ser a mesma coisa para outro. O importante aqui, é imaginarmos que não há uma acumulação de cultura, onde as pessoas se tornem donos dela e que detenham o domínio sobre todo e qualquer conceito. Assim não há indivíduo que tenha mais cultura que outro. Mais ainda, acredito que uma pessoa culta tenha menos oportunidade de viver a cultura do que uma pessoa, dita, inculta.

Visitando os escritos do filósofo Renato Janine Ribeiro, percebo em sua descrição que a pessoa que freqüenta museus, cinemas, teatros, etc. o grau de novidade de uma obra cultural, a mudança que ela proporciona, pode estar perto de um grau zero. Com esta constatação, imagino que isto quando ocorre é como se estivesse esgotando a sua capacidade de ampliar estoques. Será isso mesmo? Enquanto, diz o filósofo: “ uma pessoa virgem em cultura pode ter um vasto território a expandir. Daí que uma política de cultura deverá incluir, nomeadamente, os visionários da cultura; ou seja, os cultos. Neste caso se incluiria uma grande parte dos freqüentadores e dos criadores da cultura. Todavia, numa política que devemos traçar neste debate para que possamos garantir, também, a participação imprescindível, dos ditos, não cultos; ou seja, a inclusão daqueles que têm pouco acesso aos bens culturais, as suas obras de arte e assim esteja mais esvaziado e possa com isso, absorver muito bem a importância que esta obra cultural venha a ter na sua formação e quiçá na sua transformação.

As nossas intenções são boas, não sabemos se alcançaremos os objetivos de uma definição de cultura que busque em seus efeitos o que ela tem de importante nas vidas das pessoas. De todo modo, a busca é trazer para perto destas reflexões algo que se aproxime e promova um caráter fortemente libertador, que ao mesmo tempo em que possa produzir uma redução da importância (como sendo a única) de uma hierarquia das obras de arte ou da cultura erudita. Mas, que possam promover o acesso de pessoas ainda não providas desse” privilégio” ao conhecimento e mais que isso, do reconhecimento.

O acesso a cultura, dessa forma descrita, não significa que apenas mais pessoas freqüentem museus, cinemas, teatro etc, mas que cada vez mais, mais pessoas definam seus fins e que sejamos, apenas, os facilitadores dessa condição. Pretende-se que se tenha uma política de cultura que garanta com que as pessoas tenha cada vez mais experiências intensas para a ampliação de perspectivas e amplificação de seus contatos com que é de novo; ou seja, as pessoas possam se reconhecer dentro de sua cultura sob outro ponto de vista social: ser um ser liberto e não apenas numérico, estatístico. Compreender a política de cultura que agregue valores, que traga maior liberdade. A cultura liberta e promove mais opções de vida saudável com qualidade; isto é, uma qualidade que vai muito além da quantificação estatística. Cultura recheada de Valores humanos, condição sine qua non para a construção de perspectivas sociamente igualitárias.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A Cultura Sustentada de que ponto de Vista?

Ouvir tem sido muito bom; aliás, bem melhor do que imaginei que fosse. Começo ouvindo a leitura de meu silêncio e leio em mim a leitura de um barulho interno, sigo lendo. Li todas as coisas aqui postadas e/ou postas neste forum. Fiquei bem feliz em ter tido esse exercício da escuta e mais que isso, o exercício de aprendizado. Tem sido muito bom. Estou ainda a aprender com todos(as). Ler todos os belos artigos tem sido, para mim, a oportunidade única de tomar porres de lucidez. Muito obrigado a todos(as).

Apreender com a nova cultura ou re-significá-la é bem bacana mesmo. Temo não ter a capacidade tão profunda e esperada por todos que compõe o nosso debate forense, mais tudo bem. Vou em frente. A cultura tem que ser mesmo, segundo, orientação do mestre Teixeira Coelho, reconfigurada. Tento, juro, fazê-lo. Mesmo não tendo a capacidade histórica de ser tão modernoso. Mais tento e vou em frente na expectativa de uma perspectiva e de acreditar que é assim mesmo: Reconfigurar para sobreviver na/da cultura ou para ela e com ela.

Estes dias fiquei pensando sobre a cultura sustentada e me perguntei em que mesmo me sustentaria para acreditar na sustentabilidade da cultura. Fui indo e pensando, cá com meus botões e disse assim: Mais que história é essa de sutentação da cultura? Ora, em que mesmo isso se sustenta? Tornei a pensar no que disse Teixeira. A cultura terá que ser reconfigurada.

Pois bem, a cultura reconfigurada teria que ser pensada do ponto de vista da sustentabilidade humana; ou seja, a cultura como cenário da humanidades e isto levaria a crer que toda e qualquer fazer, saber cultural teria que se levar em conta a garantia de direitos. O caminho da cidadania junto com esta história de cultura. Acho que posso pensar na orientação do professor e acrescentar dizendo que a cultura sustentada e reconfigurada é aquela que promove a alegria, a esperança, a possibilidade de ser. Ter no ser um ser que pensa e que acredita no sonho sustentável. àquele que aponta para o futuro. Sonhar com uma comunidade de emoções que esteja, com esta nova configuração, inserida e incluída na extensão de seus direitos sociais e humanos. Uma sociedade que se manifeste por meio de suas mais diversas expressões artísticas e ou por meio de sua cultura, mais que carregue dentro de seu matulão as mais diversas garantias sociais: Educação, saúde, transporte, vida saudável e felicidade de ser um ser.

Reconfigurar a cultura é preciso, acredito nisso. Reconfigurar é preciso e logo, antes que seja tarde. Aliás antes arte do que tarde. Todavia, arte na cultura e não apenas a arte com sendo a única capacidade de expressividade de nossa cultura. O nosso ponto de vista da cultura se sustenta na tentação que me levou a refletir sobre de que ponto posso olhar a reconfiguração da cultura e de que maneira e em que medida vejo-a sustentável; Ou seja, penso numa cultura de uma outra economia. A humana.

Vamos em frente!!

Tião Soares

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Participação popular, cultura e desenvolvimento humano: o diálogo da localidade com o global

(Publicado na revista Cultura: Diálogos para o Desenvolvimento Humano, Fundação Tide Setubal, 2009)

Tião Soares

“Assim como cidadania e cultura formam um par integrado de significações, assim também cultura e territorialidade são, de certo modo, sinônimas. A cultura, forma de comunicação do indivíduo e do grupo com o universo, é uma herança, mas também um reaprendizado das relações profundas entre homem e seu meio, um resultado obtido através do próprio processo de viver. Incluindo o processo produtivo e as práticas sociais, a cultura é o que nos dá a consciência de pertencer a um grupo, do qual é o cimento”.
Milton Santos

Quando fui estimulado por Maria Alice Setubal a organizar o Seminário de Cultura: Diálogos para o Desenvolvimento Humano, do qual esta publicação é um dos principais produtos, sabia que me encontrava diante de um desafio: como mobilizar a comunidade de São Miguel Paulista, bairro localizado no extremo leste da cidade de São Paulo, a dedicar um dia inteiro para discutir a centralidade da cultura e a integração das políticas públicas de cultura, tendo como pano de fundo o desenvolvimento sustentável e o fortalecimento da localidade em diálogo com o global?
Mas por que a participação da comunidade, não só de localidades como São Miguel Paulista, tem se constituído num desafio? Diversos fatores contribuem para isso, mas nessa introdução ao rico conteúdo do seminário destacarei dois deles, pelo caráter decisivo que possuem: as noções prevalentes no Brasil do que venham a ser participação popular e cultura.

O fastio da participação
Ainda é muito comum em nosso país, quando se pensa em desenvolver trabalhos sociais, se ter em mente uma receita cheia de vontades para salvar a comunidade. Em muitos casos, esse receituário é responsável por encontrarmos jovens e crianças que participam de ações de algum projeto social e sequer sabem por que estão lá. São projetos nos quais os monitores ou arte-educadores esquecem de contextualizar os fazeres existentes. Preferem se valer dos saberes trazidos em mão única, de cima para baixo.

Fruto dessa maneira de se relacionar com as comunidades, surge o cansaço participativo, expresso no desabafo “cansei de participar”. Mas o que essa frase quer dizer? Não é exatamente de participar que as pessoas estão cansadas, mas de certo tipo de participação. Aquela que se esgota no freqüentar reuniões, onde sempre se é pautado pelo que é trazido e não se tem a chance de contribuir, de dar a sua opinião e ser escutado.
Nessa noção de participação, espera-se tão somente contar com a presença física do público, formando um aglomerado de pessoas que por limites operacionais não terão voz e vez. Para que passemos da ansiedade quanto à presença de público para o desafio da participação ativa da comunidade, em que esta seja “parte da ação”, em que todos possam contribuir com suas experiências, saberes, fazeres e sugestões, torna-se necessário reformularmos essa noção predominante de participação.

Não precisamos de um novo modelo de roda, mas fazer a antiga roda rodar. Experimentar uma nova forma de ação social em que se amplie e se areje o diálogo com a localidade. Isso pressupõe um difícil exercício de humildade para compreendermos melhor o nosso próprio discurso e ir além, empreendendo outras práticas comunitárias em torno da participação, criando ou revigorando espaços e ações que valorizem as vivências locais e tragam na sua concepção a prática da educação compartilhada.
Caso queiramos enfrentar esse “fastio participativo”, é preciso ousar e experimentar novas formas de atuação social, na qual a comunidade faça parte das ações. Com isso, amplia-se o pertencimento e com ele cresce a participação popular, pois a comunidade vislumbra a possibilidade de ver atendidas as suas aspirações e participa efetivamente para garantir a continuidade das ações.

Mas qual a relação entre essa participação da comunidade local, a cultura e a globalização? De qual cultura estamos falando?

Se o pilar da participação é o pertencimento, esse por sua vez se fundamenta na cultura – resultado dos costumes, modos de vida de pessoas e grupos, construída no dia-a-dia, nas trocas e vivências coletivas.
Nesse conceito, cultura e cidadania são inseparáveis. Não se pode falar em cultura sem se falar em participação e em conquistas de direitos. Por outro lado, não há cidadania sem se levar em conta os conhecimentos e os valores da comunidade. Um dos objetivos indispensáveis de um projeto social é despertar nos participantes um maior sentimento de pertencimento à sua localidade.

Ora, um dos contrapontos a um dos maiores riscos da globalização – a homogeneização – é o desenvolvimento de identidades próprias, ligadas à experiência pessoal de cada um no lugar onde se vive. De modo que garantir “ser” parte das ações gera a ampliação do número de pessoas participando das atividades reflexivas e dos debates nas instituições. Isso fortalece a relação das pessoas com as suas comunidades e amplia o grau de pertencimento social.

Entretanto, há riscos. Um ponto que merece cuidados redobrados é o respeito à cultural local. Carece saber antes de qual ou quais culturas estamos a falar e a respeitar. Caso contrário, poderemos potencializar culturas que se apresentam em desacordo com os princípios que declaramos no projeto social. Um dos exemplos disso é a cultura da violência, que muitas vezes é potencializada no âmbito da cultura local e, desapercebidamente, se faz presente e é veiculada nas ações de projetos sociais.

Cabe perguntar sempre: de que culturas estamos falando? Da cultura do automóvel que é priorizada em detrimento de outras práticas e vivências coletivas, como é o caso da rua e de outros espaços públicos?
A cultura da fome, desagregadora e potencialmente invisível aos olhos até dos que dela sofrem, é também uma outra vertente a ser observada, contextualizada, descontextualizada e re-contextualizada, como forma de contribuir para a reflexão e debate das comunidades populares no contexto social onde se vive?
Deste modo, a questão se torna bastante confusa e neces

sitamos de urgência neste debate em direção a uma compreensão do que estamos falando. É primordial respeitar os saberes e as culturas locais. Entretanto, antes precisamos ter claro de que cultura estamos a falar e compreender a forma pela qual passamos às pessoas da comunidades estas questões.
A cultura tem ocupado importantes espaços nos debates das políticas públicas. A questão cultural é um tema bastante instigante para a abertura de espaços de reflexões ou para situar algumas posições de governos comprometidos ou não com temas deste grau de relevância.

Entretanto, torna-se necessário empreender um esforço responsável no sentido de repensarmos o nosso exagerado crédito nos milagres de uma “suposta” política cultural, com seus especialistas e re-inventores da roda de plantão que lá estão, saídos de gabinetes acarpetados, a propor milagres mirabolantes.

Há que se estar alertas e, ao mesmo tempo, ousar. A concepção atual, que enxerga a cultura de forma fragmentada, restrita ao universo da organização de eventos, deliberadamente empobrece sua potencialidade. A proposta é a aposta. Colocar a cultura no centro, tirando-a da posição periférica, complementar, suplementar, que hoje ocupa no cenário das políticas públicas. Para isso, no contexto atual, de intensas relações globais e fortes diferenças sociais, ganha importância crucial o local, a cidade. Entretanto, precisamos entender a cidade como o centro onde a cultura acontece. Cada pessoa tem uma paisagem imaginária de cidade.

Assim, não se pode criar um re-configurador arbitrário do imaginário da cidade, mas ao contrário. Precisamos pensar a partir de outro ponto de vista, mudar as perguntas para encontrar novas respostas. Devemos compreender a cidade como sendo um cenário do conhecimento e ir além, mudar o paradigma, ler a cidade como sendo um cenário do reconhecimento. Passar da visão da unicidade – da informação, do evento e do desconhecimento – para a visão polissêmica da diversidade, enxergar e reconhecer os diversos matizes da pólis, favorecer as redes de conhecimento no intuito de aumentar o capital social.

Isso não é compatível com a concepção de cultura como evento e sim com a idéia de cultura como conjunto de iniciativas que atendam a reivindicações de diferentes linguagens e gêneros, bem como dos indivíduos criaturas criadoras. Com uma idéia de política cultural firmada no diálogo intercultural e na hipótese da centralidade da cultura na concepção de políticas públicas – assim mesmo no plural, cultura presente em todos os campos onde a vida na cidade acontece: no transporte, na economia, no planejamento urbano, no meio ambiente, na saúde, na segurança alimentar, na comunicação, na educação, no lazer e na cultura. Isso porque não há desenvolvimento econômico sem desenvolvimento cultural e, por sua vez, sem cultura não há desenvolvimento humano.

Acreditamos que a democratização do acesso à cultura é atingida a partir de uma política de garantia de direitos construídos por pessoas fazedoras e, portanto, pertencentes ao produto e não apenas como consumidoras de pacotes impostos de cima para baixo, do Norte para o Sul, do Centro para a Periferia. Nessa noção, a cultura é entendida como fator preponderantemente de transformação social. Daí seu valor inclusivo.
O que pretendemos é garantir uma prática ”nova-antiga” para a discussão, no sentido de ajudar a pensar a cultura como política pública e compreendê-la desta forma, criando assim a responsabilidade de incluir pautas constitutivas da criação coletiva, balizando-se, todavia, na construção universalizada dos direitos à criação. Mais do que isto: visando a uma cidadania cultural plena que nos remeta ao pertencimento.

Cultura e Educação: Pares para a sustentabilidade humana

Publicado no livro: Cenas: Trajetos, Vivências, Histórias de Ser Jovem, Fundação Tide Setubal, 2008)

Tião Soares *

Pensar ações que se constitua em ponto de partida, em instrumento para um debate que culmine em uma perspectiva da problemática educativa, cultural e de valores humanos, apresenta dificuldades que provém de uma questão essencial: os processos educativos se desenvolvem em contextos sociais e históricos concretos.

Neste sentido, conceber um projeto possível de desenvolver o potencial criativo de pessoas, é também pensar na possibilidade que este seja construído por elas e que possibilite abrir janelas críticas e conscientes, para que estas pessoas se tornem capazes de refletir sobre os seus fazeres e saberes. Saberes deixados para trás e ou adormecidos, devido
ao grande fluxo de informações, vez transformados em deformações.

Vê-se a cada dia em muitos cantos do mundo e da cidade a apresentação de propostas educativas, artísticas e culturais para crianças e jovens na tentativa de salvá-las(os) dos males que o mundo contemporâneo traz, como: desemprego, violência de todos os níveis, desagregação social, apatia e outros. Muitas vezes essas tentativas soam como promessas e curadoria de almas em torno da profissionalização desses jovens.

A arte, a cultura são os antídotos prometidos para retirar esses
jovens e crianças das ruas. Sim, retirá-los da rua, incluí-los em programas sociais nos quais vislumbram adquirir habilidades artísticas; de modo que com essa proposta, a nosso ver equivocada, estes jovens possam se transformar em atores ou atrizes, músicos ou artistas plásticos, malabaristas de faróis, quem sabe. São algumas questões muito presentes nesse universo de ONG'S e/ou de projetos sociais.

As chamadas oficinas artísticas, dentre outras modalidades de atividades, com honrosas e raríssimas exceções, servem para criar o desejo nestes jovens e nessas crianças de se tornarem artistas. Depois disso, o que fazer? Os jovens sonharam, tornaram-se melhores, mas a família exige uma contrapartida: Eles têm, então, que trabalhar, arrumar um emprego e levar dinheiro para ajudar no sustento de sua família, ou se profissionalizar em algum tipo de atividade, por exemplo: telemarketing. Só para citar uma.

Posto esse desafio, o que esse projeto ou essa ONG pode fazer com a promessa de transformá-los em artistas e ou profissionais das mais diversas áreas? Estes desafios fazem com que reflitamos melhor sobre as nossas práticas, pois se não olharmos melhor nessa direção, esse jovem tende a largar as atividades e partir para o sonho dourado: o de ganhar dinheiro. E isto pode ocorrer de diversas maneiras: num sub-emprego de lava-rápido, na distribuição de panfletos, entre outros. São realidades muito presentes no cotidiano de projetos que trabalha com jovens.

De modo que as nossas práticas deverão ser melhor refletidas para que não tenhamos um efeito contrário àquilo que dissemos que faríamos; ou seja, de melhorar a vida das pessoas, entre outras coisas. Entendermos o ensino da arte por meio das práticas culturais é ter em mente algumas
preocupações no fazer da educação, é imprescindível que se leve em conta, minimamente, os saberes e os fazeres dos educandos com os quais estamos trabalhando. As atividades nos diversos campos do conhecimento da arte devem ser contextualizadas, levando-se em conta o momento de vida desses educandos e seu momento histórico, ligando-os à sua cultura e ao sentimento de pertencerem ao que fazem.

A arte é sempre usada como promessa para a criação de um desenvolvimento local e na maioria das vezes se esquece que é necessário primeiro compreender o contexto onde as pessoas estão inseridas. Para se falar em desenvolvimento cultural e local é necessário que se reconheça o cenário onde os diversos atores sociais se movimentam, constroem seus espaços públicos e de convívio humano, valores e não perder de vista o olhar que estes atores têm sobre a sua comunidade.

Desenvolvimento cultural local é um processo pelo qual se resgatam identidades e/ou se constroem novas a partir da compreensão dos seres que habitam aquele local e constroem aquela cultura específica. Mas de que cultura local estamos a falar? Neste sentido, entende-se que o lugar onde a cultura acontece é o espaço onde há qualidade de vida e onde se inclui a construção da cidade real, num sentido de pertencimento.

Neste quadro pode-se dar destaque à educação como produtora e reprodutora de sentidos de existência, de trocas e de debates, de perguntas muito mais do que de respostas. A comunicação de massa que prega cotidianamente a apreensão de uma outra cultura, parece ser uma das responsáveis por grande parte da desagregação social que se constrói nesses territórios. São informações, na maioria das vezes, deformadoras e alienadoras. Entender a importância do sentido de pertencimento, é uma preocupação que o educador deverá ter na implementação de ações sociais. O processo de alienação se constrói a partir da negação do sentimento de pertencimento; ou seja, a partir da negação de seu território ou da não comunicação com a sua cultura.

O projeto Arteculturação por meio do Núcleo Sócio Cultural traçou objetivos ambiciosos e porque não dizer, ousados à busca de respostas e mais que isso, de perguntas, a esses e outros desafios; ou seja, traçou objetivos ambiciosos para serem construídos, coletivamente na intenção de criar outra cultura no ambiente de trabalho, mas que fosse diferente da que o mundo contemporâneo tem, insistentemente, exigido desses jovens.

O mundo contemporâneo tem procurado colocar o jovem numa condição de dar respostas imediatas. Precisamos ter consciência que a sustentabilidade, tem que passar pela condição humana. Não acreditamos em sustentabilidade que não seja humana. De modo que os desafios colocados no projeto passam necessariamente, pela possibilidade de formar pessoas criativas que consigam olhar o mundo por outras frestas e ter consciência de uma criação crítica e uma crítica da criação.

O Núcleo sócio cultural trilhou, nesses poucos meses de atuação, por veredas complicadas. A questão era: como trabalhar com tantos jovens que vieram na intenção de cursar teatro e com este curso se tornarem atores e/ou atrizes? Atores e atrizes, não só isso. Teriam que trabalhar também em alguma emissora de televisão e se tornarem famosos. Esse sonho poderia acontecer, por que não!? Mas fomos mais longe, a nossa intenção era fazer com que esses jovens enxergassem outros caminhos; talvez menos conhecidos, mas que tivessem trilhas andáveis e mais sólidas.

Trabalhar a construção de outros sonhos não foi tarefa fácil. Passar pela possibilidade de construir o histórico de cada um e re-escrever a sua história e depois escrever a história de outros, construir um texto. Ler as letras e mais que isso, entender o que leu. Ler o mundo é uma tarefa bem difícil. Sabíamos disso, mas era um desafio. Fomos longe e ainda não chegamos, demos a partida. Há muita estrada a caminhar.

Uma das intenções do projeto, por meio desse núcleo, era também experimentar outras linguagens na área do conhecimento que a própria linguagem do teatro exige. Conhecer técnicas de luz, de som, cenografia, figurino. E a cidadania, como construir com eles esta compreensão? Aliás, o que é mesmo cidadania? E de que modo podemos responder a tantos desafios que a vida oferece? Os(as) meninos(as) buscam ser ator ou atriz? Chegamos hoje, quase no meio do caminho. Agora com mais pedras do que antes. Construímos outros desafios e com eles, outras possibilidades: a de dizer que é possível sonhar. Acho, embora cedo, que é possível trilhar por esse caminho por nós escolhido - em busca do “fazer junto”, do “fazer com” - a construção e uma cidadania ativa e com ela construir projetos mais coletivos e fazer valer as lições e ações por eles apreendidas nas suas comunidades ou outros espaços por onde vierem a conviver.

Entendemos que esses meninos e meninas possam ter trilhado caminhos mais seguros e, com esta segurança, ter lhes apontado veredas mais sólidas e mais críticas, tornado cidadãos e cidadãs melhores e mais preparados para enfrentar os desafios do mundo lá fora, a partir dessa nova descoberta: o mundo interior. O alicerce foi construído. O desafio da construção da individualidade foi posto em contraposição a do individualismo.

A arte teve sua importância neste cenário. A contextualização foi parte indispensável desta construção. A ausculta social, metodologia aplicada em todo processo fez cavar em cada gente, especialmente, em nós educadores, outras formas de olhar o mundo e de nos vermos. O mundo que nos desafia ficou a nos olhar com outros olhos. A olho nu, a ausculta disse ao olhar que seria possível ter gestos mais humanos e diferentes daqueles que se apresentaram em primeiro plano, como o único e teoricamente mais possível. Os ruídos internos nos levaram a outros mundos desafiados pela compreensão do reconhecimento de mim no outro e este em mim. Os eu's anteriores nos eu's do/no mundo, interligando a mim, outros seres antes inexistentes, agora re-conhecidos em mim mesmo, a partir de meu gesto escondido no outro que antes me envergonhava. Envergonhava-me por não saber dizer de mim no outro.

As piscadelas de meu olhar têm outro sentido, agora são outros desafios a fio. Culturalizar a educação é arte que se constrói. Vemos que a arte tem e teve um lugar de destaque nos processos de transformação; aliás, a arte é agente de transformação, produto e produtora do processo de transformação. Foram os contextos, des-contextos e re-contextos, parte deste cenário de atores e atrizes que re-fizeram num dizer possível: SER.

São desafios que a própria condição social atual exige. São milhões de jovens que circulam nas cidades do Brasil e do mundo à busca de respostas a tantas perguntas. São desafios exigentes e extraordinariamente comprometedores para a compreensão de seres mais humanos, que tenham em sua bagagem de ser a possibilidade de viver o seu momento de ser jovem e, portanto, uma pessoa. Aqui se escreveram pequenas histórias e longas conversas se desenvolveram em torno dessa construção. Se desconstruiu muitos jeitos e se fez disso outros jeitos de se dizer e de se fazer, nomeadamente, o de se reconhecer como sujeito ativo, participativo. Pôde-se também abrir janelas de se ver o mundo com diálogos mais dialógicos, como àqueles de se fazer saber o que havíamos esquecido que sabíamos fazer.

*mestre em educação e coordenador de cultura da Fundação Tide Setubal.

Cultura, esporte e lazer. Direitos ainda marginais

Recursos ainda são gastos de forma desigual, apesar de incentivos fiscais; 14 das 31 subprefeituras não têm cinemas ou casas de cultura; área de esporte briga por orçamento de 1% da receita da prefeitura

Adriana Carranca - O Estado de São Paulo - 15/09/2008

A Constituição coloca a cultura como direito e estabelece que a responsabilidade sobre o acesso é do governo federal, Estado e município. O mesmo para esportes e lazer. As duas áreas, no entanto, são marginais na administração pública, com somente 1,7% e 0,6% do orçamento municipal, respectivamente. Para especialistas ouvidos pelo Estado, é um erro não reconhecer o papel da cultura e dos esportes no desenvolvimento humano e econômico e social da cidade.

A forma desigual com que os recursos são investidos retratam esse descaso. Na cultura, as regiões mais pobres são as que têm menos equipamentos públicos e onde a população não tem acesso às produções artísticas, muitas vezes financiadas com incentivos fiscais. A Lei 10.923, de 1990, permite aos patrocinadoras debitar parte dos investimentos do Imposto Sobre Serviços (ISS) e do IPTU.

"São Paulo tem milhares de manifestações artísticas, mas nem toda a população tem acesso a elas. Nossa cultura ainda é elitista, cara e com equipamentos concentrados nos Jardins, enquanto os CEUs, nas periferias, são mal utilizados e não existe apoio a novas manifestações culturais", diz Fernando Burgos, pesquisador do Centro de Estudos de Administração Pública e Governo da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP).

Para o diretor do Sesc-SP, Danilo Miranda, leis de incentivo são positivas desde que haja distribuição de recursos sem privilegiar uma ou outra linguagem. "A comissão avaliadora existe para isso. Na prática, as artes e os bairros que atendem a elite absorvem grande parte da verba, como se a cultura popular não fosse cultura." A classe baixa perde duas vezes: deixa de receber os recursos, destinados às produções, e não tem acesso ao produto final, porque faltam teatros, cinemas e espaços públicos nos bairros.

Os teatros se concentram na Sé, com 103 espaços ou 54% do existente na cidade, seguido pela Lapa, com 21 (11%), e Pinheiros, com 18 (9,5%). Na outra ponta, bairros distantes e precários como Itaim Paulista, Guaianazes, Casa Verde, Cidade Ademar, Cidade Tiradentes, Ermelino Matarazzo, Brasilândia, M?Boi Mirim, Parelheiros, Perus, Pirituba, São Mateus, São Miguel e Sapopemba têm zero. Os dados são do Observatório Cidadão, do Movimento Nossa São Paulo. O número de livros em bibliotecas infanto-juvenis na Sé é 36 vezes maior do que nesses bairros, onde também faltam cinemas ou casas de cultura, não disponíveis em 14 das 31 subprefeituras de São Paulo. E, ainda que a população venha para o centro, os ingressos são caros, inacessíveis à maioria.

Na visão de Tião Soares, coordenador de Cultura da Fundação Tide Setúbal, ao limitar a cultura a grandes espetáculos o poder público "abre mão da diversidade". Tião e Danilo Miranda defendem uma política transversal, com ações nas outras secretarias, como educação. "A cultura tem de ser ensinada como conteúdo na escola", diz Tião. "O acesso ao livro e o fomento da produção literária devem estar ali e em espaços abertos na cidade." Danilo acredita que a administração municipal não deve financiar diretamente artistas, mas promover o ambiente necessário para o surgimento de novas manifestações culturais, como cursos, festivais e espaços de apresentações espalhados pela cidade.

ESPORTES

A área de esportes ainda briga por um orçamento de, pelo menos, 1% da receita da prefeitura. "As administrações, desde 2003, deram mais ênfase para o esporte. Há um senso comum de que é bom para inserção social e para saúde, mas isso não é acompanhando de equivalente participação no orçamento", constata o professor da FGV Marco Aurélio Klein, especialista em planejamento estratégico do esporte e diretor da Federação Paulista de Futebol. Ele vê como prioritária a capacitação, profissionalização e qualificação de gestores locais que possam "gerar sua própria capacidade esportiva".

Significa saber organizar, montar regulamentos, fazer tabelas, divulgar e buscar recursos para as atividades. "Isso exige treinamento. Só assim vamos sair de uma coisa voluntariosa na área esportiva para uma gestão profissional do esporte na cidade. As administrações locais (subprefeituras) devem organizar suas próprias competições, com recursos privados locais. O importante não é tanto ter um atleta em Olimpíada, mas dar oportunidade a todas as crianças de praticar, participar, competir."

Ele defende maior envolvimento das escolas. "A participação das escolas em competições é muito pequena. O modelo esportivo brasileiro é formado em torno dos clubes, é por meio deles que o atleta se registra numa federação para competir profissionalmente. Essa talvez seja a razão que esvaziou o papel da escola. Mas isso é um engano. Não adianta ter quadra se não há competição. E dificilmente esses espaços são usados simplesmente abrindo as portas. Você precisa ter eventos, atrair os alunos, as famílias, enfim, a comunidade. Nos Estados Unidos, não existe ministério, Secretaria de Esportes. As escolas fazem acontecer."

Breve Currículo

Tião Soares atua há 25 anos na área de Educação, Cultura e Desenvolvimento Humano. Nascido em Martins-RN, formou-se em Ciências Sociais pela Universidade Federal do RN, mestre em Educação pela Universidade Metodista – SP e doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP.

Sua atuação social teve inicio nos anos 70 quando foi diretor de cultura e comunicação da Casa do Estudante do RN, mudou-se para o estado de São Paulo onde atuou como coordenador de projetos culturais do Projeto de Reforma do Ensino Público do Estado de SP (Escola Padrão); idealizador e coordenador do projeto Barracões Culturais da Cidadania; membro da coordenação do Fórum Intermunicipal de Cultura (Rede Nacional); colaborador do Instituto Polis na área de cultura e cidadania; fundador e diretor do Fórum Permanente para as Culturas Populares - SP e da Rede Nacional de Culturas Populares; Secretário de Cultura de Itapecerica da Serra – SP; idealizador e fundador do Conselho Municipal de Cultura de Paz – COMPAZ; foi professor de pós-graduação da Universidade Metodista – SP; foi membro do conselho consultivo do Prêmio Cultura Viva – Minc; é coordenador de cultura da Fundação Tide Setúbal – SP; membro do GT de Cultura do Movimento Nossa São Paulo; é conselheiro do CDC Tide Setubal.

Ganhador do prêmio Gestão Pública e Cidadania pela Fundação Getulio Vargas e Fundação Ford – BNDES; Prêmio Itaú UNICEF. Idealizador da metodologia da Auscultação Social (livro em elaboração). Publicou diversos artigos em livros, jornais e revistas dentre eles “Projetos Sociais e Participação Popular” no Rumos Itaú Cultural – Educação Cultura e Arte 2007.

Seu trabalho baseia-se numa concepção de cultura como um conjunto de pessoas e grupos com modos de vida, costumes e gostos e nas trocas e vivências coletivas. Nesse conceito, cultura e cidadania são inseparáveis. Não se pode falar em cultura sem se falar em participação e em conquistas de direitos. Não há cidadania se não se levar em conta os conhecimentos e os valores da comunidade. Nestes sentidos, a principal contribuição é de incentivar, ampliar e proporcionar o surgimento de espaços de referência comunitária nas artes, cultura e cidadania, desenvolvendo ações de parceria entre as entidades locais, incentivando e/ou fortalecendo a formação de redes horizontais baseados nas relações sociais da região. A experiência desenvolvida mostrou que o trabalho desenvolvido fortaleceu a relação de crianças, jovens e adultos com a comunidade do entorno e ampliou o grau de inclusão social. Assim, fortalecidos, puderam formar redes regionais e/ou microrregionais que atuam de forma articulada, ampliando o capital político, social e humano. Tornando-os Cidadãos.